1–
Como é caracterizada a homofobia nas relações de trabalho?
Na relação de trabalho, o preconceito contra
homossexuais, a chamada homofobia, é configurada quando a sexualidade da pessoa
é usada como fator para uma punição. Em outras palavras, um patrão se mostra
homofóbico ao demitir um empregado apenas por ele ser gay, a despeito de ele
ser competente no exercício de suas atribuições. Em outro exemplo, pode-se
imaginar uma empregada que se recuse a obedecer o comando de uma patroa lésbica,
mesmo que a ordem faça parte do trabalho.
2 – Um estudo de Siqueira e Fellows
(2006, p. 71) mostra que os gays assumidos têm mais dificuldade em ocupar
cargos hierarquicamente mais elevados. Por quê?
Limitando-me à cultura brasileira, eu diria que há uma
ligação muito forte entre o respeito profissional e a sexualidade, ainda que
esta seja uma questão de cunho pessoal. Nossa cultura mistura muito o público
com o privado, e a relação de emprego acaba ficando refém da preferência
sexual. Se falamos em um travesti, por exemplo, o normal é pensarmos em alguém
que exerça como profissão a prostituição. Há uma ligação direta na nossa
cabeça, que identifica travesti com o sexo feito por dinheiro. Nesse contexto,
a sociedade, infelizmente, tem dificuldade em contratar um gay assumido para
ser professor, porque irá lidar com crianças; ou para ser chefe, porque o
comando exigiria uma postura rígida que – por puro preconceito – consideramos
difícil ser desempenhada por um homossexual.
É uma especulação, não tenho dados estatísticos que
confirmem essa minha hipótese. Mas acho que uma das desvantagens de misturarmos
o público como privado é essa vinculação da sexualidade com a competência
profissional. Deixo claro apenas que essa mistura ocorre em outros países e que
há também vantagens nessa nossa confusão entre o que cabe ou não a cada pessoa
decidir invidualmente.
3 – O que já foi
conquistado em benefício dos homossexuais?
4 – Quais medidas legais uma pessoa que foi vítima de assédio moral por causa da orientação sexual pode adotar?
Em outros tempos, ser gay já foi
crime. Em outros lugares, ainda é. O direito constitucional à liberdade sexual,
decorrente das lutas dos anos 60, é um benefício. Há um direito individual de
cada pessoa se relacionar com a pessoa que quiser. Isso é uma conquista
crucial.
Mas há ainda muito a ser mudado do
ponto de vista social. Lembro o exemplo, absolutamente preconceituoso, da
conhecida piada de que ser gay era proibido, tornou-se aceitável e será
obrigatório. Ela pressupõe que as pessoas heterossexuais devem temer a
sexualidade das pessoas homossexuais, que elas devem lutar para garantir sua
heterossexualidade. Isso é uma inverdade muito cruel. Se um homem que conheço é
gay, isso não interfere em nada em meu gosto por mulheres, por exemplo.
Basicamente, cada pessoa precisa
respeitar as pessoas que não gostem do mesmo tipo de relação. Essa é uma
conquista a ser construída.4 – Quais medidas legais uma pessoa que foi vítima de assédio moral por causa da orientação sexual pode adotar?
Considero que o melhor caminho
jurídico é a reclamação trabalhista, o mesmo para qualquer outra forma de
assédio moral. A vítima de assédio moral homofóbico deve levar ao Judiciário o
seu caso e requerer que a empresa lhe restitua, seja por uma indenização, seja
pelo retorno ao emprego, o que for mais adequado em cada hipótese.
Há ainda mecanismos penais. Seria
possível, por exemplo, prender o chefe que destratou um subordinado gay. Mas
acho que essa medida não soluciona o problema. Seria necessário construir um
argumento jurídico muito sofisticado mas que se limitaria a cada processo,
dificilmente alcançando valor para outras pessoas.
E há também mecanismos que podem
preceder as medidas legais. Se a vítima julgar que basta a ofensa não ser
repetida, o melhor seria buscar, discretamente, um diálogo franco com o chefe,
por exemplo. Mas para isso dar certo, deve haver sobriedade na abordagem, sem
escândalos no ambiente laboral, por parte do empregado e compreensão, sem
pedras na mão ao ouvir a queixa, na postura do empregador.
5 – Quais as
vantagens e desvantagens de uma lei que criminaliza a homofobia?
Hoje busca-se a criminalização específica do preconceito contra homossexuais. É uma demanda que considero cabível, uma vez que há, sim, diversas ocasiões em que ser gay é visto como algo pejorativo. Quando ofendemos um amigo homem, por exemplo, chamando-o de “viado” ou “mariquinha” estamos reforçando, ainda que de forma bastante sutil, a ideia de que ser homossexual é um defeito. Por isso, considero plausível que haja uma luta para que o direito à liberdade sexual seja mais concreto do que uma simples frase na Constituição.
Hoje busca-se a criminalização específica do preconceito contra homossexuais. É uma demanda que considero cabível, uma vez que há, sim, diversas ocasiões em que ser gay é visto como algo pejorativo. Quando ofendemos um amigo homem, por exemplo, chamando-o de “viado” ou “mariquinha” estamos reforçando, ainda que de forma bastante sutil, a ideia de que ser homossexual é um defeito. Por isso, considero plausível que haja uma luta para que o direito à liberdade sexual seja mais concreto do que uma simples frase na Constituição.
Por outro lado, sou contra a criação de um novo tipo penal. Mais prisões não trarão menos preconceito. Acho que esse não é o caminho, porque pune apenas aquela pessoa que manifesta o preconceito, sem que isso necessariamente reflita na sociedade. O direito penal não serve como ferramenta para efetivar direitos fundamentais. Ele apenas pune a violação, ele não repara o estrago. O Brasil precisa, isso sim, de políticas que de fato possam prevenir o estrago. O Estado, seguindo essa demanda legítima da sociedade, precisa se esforçar para adotar uma solução que faça mais pelo respeito à homossexualidade do que aumentar o número de presos no Brasil.
6 – O Brasil está
preparado para uma lei assim? Por quê?
Não acho que se trate de preparação. Na minha opinião, punir a manifestação verbal do preconceito com pena criminal seria um erro em qualquer país, em qualquer hipótese. Há outras formas de sanção, outros meios de repreender a intolerância.
Não acho que se trate de preparação. Na minha opinião, punir a manifestação verbal do preconceito com pena criminal seria um erro em qualquer país, em qualquer hipótese. Há outras formas de sanção, outros meios de repreender a intolerância.
De qualquer forma, uma lei penal brasileira nesse sentido tanto poderia agravar a já penosa situação de preconceito hoje existente, quanto poderia ajudar a desconstruir esse preconceito. Creio não haver garantias de que dará certo, e o risco de dar muito errado é bastante alto. Suponho que haveria um “patrulhamento” sobre a questão, e qualquer menção a atividade ou atração homossexual poderia – por equívoco – ser interpretada como ofensiva e, logo, crime.
De novo, é uma questão da própria proposta de usar o direito penal com forma de promover direitos fundamentais. É como tentar salvar vidas com bombas aéreas ou um afogado com um jato d’água.
Fontes: https://hiperficie.wordpress.com/2011/09/09/entrevista-homofobia-nas-relacoes-de-trabalho/
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